Talvez você tenha assistido ao filme Devoradores de Estrelas. Ele chegou aos cinemas brasileiros em abril de 2026 e, sinceramente, foi uma experiência rara para mim. Há muito tempo eu não saía tão satisfeito de uma sessão de cinema.
O filme é baseado no livro de mesmo nome, escrito por Andy Weir. No original, porém, o título é Project Hail Mary, algo como “Projeto Ave Maria”. E essa escolha carrega um significado muito mais poderoso do que a tradução brasileira consegue transmitir.
“Hail Mary” é o nome dado, no futebol americano, àquela jogada desesperada em que o quarterback lança a bola o mais longe possível, esperando que alguém consiga agarrá-la e marcar um touchdown nos últimos segundos. No basquete existe algo parecido: o arremesso improvável no instante final, com o cronômetro zerando enquanto a bola ainda está no ar. É uma aposta contra o impossível. Uma tentativa final quando não resta mais nada.
E isso tem absolutamente tudo a ver com a história.
Fui assistir ao filme sem saber praticamente nada sobre ele. E talvez tenha sido exatamente isso que tornou a experiência tão impactante. Eu acompanho alguns podcasts sobre cinema e cultura pop, como Cinema com Rapadura e Jovem Nerd. Ambos fizeram episódios dedicados ao filme, o que despertou minha curiosidade. Felizmente os filmes ainda estavam em cartaz e resisti à tentação de ouvir qualquer comentário antes de ver o filme, pois eu não queria spoilers.
Depois de assistir ao filme, ouvi o episódio do Cinema com Rapadura e percebi algo interessante: o livro parecia expandir muito a experiência da história. Então decidi ler.
A premissa é fascinante. O Sol começa a perder brilho. Aos poucos, cientistas descobrem que criaturas unicelulares estão drenando sua energia. Elas não chegam a “apagar” o Sol, ele apenas fica cerca de 10% mais fraco. Mas isso basta para alterar completamente o clima da Terra. Colheitas entram em colapso, ecossistemas começam a ruir e a humanidade caminha lentamente para uma nova era glacial cuja consequência é a morte iminente de bilhoões de pessoas.
É nesse contexto que nasce o Projeto Hail Mary.
Os cientistas descobrem que não apenas o Sol, mas várias estrelas próximas também estão escurecendo. Todas, exceto uma. A humanidade então se une para enviar uma nave até essa estrela saudável, numa tentativa desesperada de descobrir o que há de diferente nela e, talvez, salvar a vida na Terra.
É uma missão suicida. É uma viagem sem volta. Os astronautas partem sabendo que morrerão longe de casa. Qualquer descoberta precisa ser enviada de volta por sondas automáticas, na esperança de que elas sobrevivam à jornada e sejam encontradas pela humanidade. É literalmente uma jogada “Hail Mary”: a última tentativa possível diante do colapso iminente.
Andy Weir também escreveu Perdido em Marte, que deu origem ao excelente filme de mesmo nome em 2015. Eu gostei muito do filme quando assisti, mas nunca senti vontade de ler o livro. Com Devoradores de Estrelas, foi diferente. Algo naquela história me fez querer mergulhar mais fundo. E valeu completamente a pena.
Ler um livro depois de assistir ao filme costuma ser complicado. Você já conhece o final, já sabe os grandes acontecimentos, já perdeu o elemento surpresa. Mas, felizmente, Devoradores de Estrelas continua sendo extremamente divertido mesmo assim. O livro adiciona muito mais contexto, detalhes científicos, explicações e momentos que o filme simplesmente não teria tempo de desenvolver.
E existe outro ponto que me conquistou profundamente: a forma como Andy Weir usa ciência. A história inteira é construída sobre conceitos científicos reais. Claro, há elementos fictícios e tecnologias que ainda não existem, mas quase tudo possui algum alicerce plausível dentro da física moderna. Em vários momentos, por exemplo, a narrativa menciona que a viagem espacial dura cerca de quatro anos para os tripulantes da nave, enquanto mais de treze anos se passam na Terra. Isso não é um truque de roteiro.
Essadiferença nada mais é que a dilatação temporal relativística, um efeito previsto pela Teoria da Relatividade de Albert Einstein. Para quem nunca teve contato com esses conceitos, certas partes do livro podem até soar como pseudociência. Mas não são. Andy Weir claramente pesquisa muito antes de escrever. E talvez seja exatamente isso que torna tudo tão envolvente: a sensação constante de que aquilo está apenas alguns passos além do que a ciência atual consegue alcançar.
Depois de terminar o livro, cheguei à conclusão de que gostei mais do filme do que do livro. Ainda assim, fiquei feliz por ter lido o livro mesmo já conhecendo o final. Achei que seria perda de tempo. Não foi, nem de longe. O livro oferece mais profundidade. Mais ciência. Mais humanidade. E, principalmente, mais emoção. Durante um reencontro específico, eu chrorei. E isso é raro. Muito raro. Não existe fórmula para medir o valor de uma experiência assim.
Talvez minha experiência tivesse sido diferente, e talvez até melhor, se eu tivesse lido o livro antes do filme. Nunca vou saber. Mas sei de uma coisa: fazia muito tempo que uma história não me fascinava dessa forma.
E quando uma obra consegue provocar encantamento, curiosidade científica e emoção genuína ao mesmo tempo, ela deixa de ser apenas entretenimento. Ela permanece com você.